Belchior e a literatura

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O primeiro contato da radialista e pesquisadora cearense Josely Teixeira Carlos com a obra do conterrâneo Belchior respirou fascínio e estranhamento: quando criança, ela gostava de ouvir as músicas do cantor, mas custava a entender o significado do conteúdo embutido nas letras. As dúvidas aguçaram o interesse pelas composições, e a incompreensão se converteu em pesquisa. Na faculdade, ela percebeu a necessidade de estabelecer pontes com outros campos artísticos, como a literatura, para compreender o teor das canções. Era o prenúncio da descoberta de um artista capaz de se imortalizar através de obras atemporais e universais, de expressar o particular e o geral, o local e o internacional, com capilaridade criativa para além do campo da música.

Em 2016, ela desenvolveu um projeto para celebrar os 70 anos de vida de Belchior, através da análise dos 11 discos autorais do compositor até o último álbum com inéditas (Bahiuno, de 1993). Em paralelo, havia desenvolvido uma amizade com o ídolo, definido por ela como um guru. “A obra dele, para mim, é uma fonte inesgotável de conteúdo filosófico e humanista, de temas para vida e para além da questão intelectual. Era uma pessoa maravilhosa, um cavalheiro à flor da pele, educado, gentil, bem humorado, feliz, alegre”, diz a doutora pela Universidade de São Paulo (USP), estudiosa das música de Belchior desde 1999. Ao Viver, entre considerações sobre o legado do cantor, Josy disse considerá-lo “o compositor brasileiro que mais conversa com a literatura brasileira e mundial”.

Entrevista /// Josy Teixeira, pesquisadora 

Por que o interesse na obra de Belchior?
Minha relação com o Belchior é muito antiga. Sou cearense e ouço desde muito pequena, na rádio da Universidade Federal do Ceara. Ouvia junto às músicas de Fagner, Ednardo. Mas o que me chamava a atenção era que eu não entendia as canções do Belchior. Mais tarde, quando entrei na faculdade de Letras, percebi que precisava de outras referências literárias e musicais para chegar ao sentido das canções dele. Percebi que a obra precisava ser desvendada, os sentidos, estudados e analisados, comparados e analisados. A obra dele dialoga com a de Bob Dylan, Beatles, Rolling Stones.

Qual a importância dele para a música e o país?
Ele trabalha com muitos diálogos com outros textos literário e musicais, uma infinidade de autores da literatura brasileira, como Carlos Drummond de Andrade e José de Alencar. A importância também está na profundidade intelectual da obra. Não tenho dúvida de que é o compostor brasileiro que mais conversa com a literatura brasileira e mundial, e isso é expressado na obra, ora diretamente, ora de forma sutil. Ele quer que o leitor entre na obra para que consiga se aproximar da conversa que quis estabelecer.
Em essência, sobre o que falava a obra do cantor?
Vai muito além de um “rapaz latino-americano vindo do interior”, como diz a música. Está associado a esse personagem do rapaz latino que sai da cidade pequena e migra para uma grande metrópole, passa por todo tipo de sofrimento, dificuldade e quer vencer. E não quer voltar para o Sertão (como ele diz na canção Como os nossos pais: vou ficar na sua cidade não vou voltar para o Sertão). Fala sobre esse personagem que representa milhões de brasileiros que deixam a cidade natal em busca de uma cidade melhor. É um personagem que sofre, mas resiste. A imagem, esse significado do homem interiorano que parte é muito forte. Mas a obra está além dessa mensagem. Dialoga com vários universos da cultura, com questões políticas, filosóficas, científicas. Esse homem tem origem no Sertão, mas conversa com um universo maior que o brasileiro, latino-americano, mundial. É a proposta de que o Brasil não está sozinho, é um país que dialoga com outros países, está inserido dentro de um sistema maior.
O caráter atemporal das letras é um dos méritos do autor?
Uma das características mais importantes é a atualidade. É a contemporaneidade. Parece que ele escreveu essas canções ontem, durante a greve geral do Brasil. São canções que falam de temas atuais. Isso se deve ao fato de ele ter escolhido conteúdos que sempre vão existir, a relação entre o regional e o nacional, entre o nacional e o internacional, entre os filhos e os pais, entre gerações presentes e antigas. Fala das dificuldades cotidianas, das pessoas que estão à margem dos grandes centros, do papel das instituições. São pessoas que estão aí, no dia a dia, enfrentando dificuldades e sendo reféns das grandes decisões políticas e institucionais. Se ele fosse francês, as canções se adequariam às lutas de classe da Europa, processo de imigração.

Quais músicas dele são fundamentais para entendê-lo?
Como a obra é muito densa, é difícil citar uma que possa reunir tantos conteúdos. Poderiam ser três. Apenas um rapaz latino-americano, um dos grandes personagens que ele instituiu para o sentido que quis passar no cancioneiro. Fotografia 3×4 fala sobre a migração, do norte para a cidade grande. E Até mais ver, que marca não os conteúdos, mas fecha o cancioneiro dele. É a última canção gravada por Belchior, no último disco dele autoral (Bahiuno, de 1993). É a canção de despedida. Não por acaso aparece como a última faixa do disco. Não teve quase nenhuma repercussão, mas fecha a obra porque se despede e diz que a distância com o público é passageira. A gente identifica ali que ele não volta mais. Ali, ele encerra a sua ópera.
Fonte: Diário de Pernambuco


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