Feriado alegre, cercado de leitura!

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O Dia Nacional da Leitura na Biblioteca de São Paulo teve direito à revoada de balões, doação e troca de livros, oficina de brinquedo vivo e exibição de vídeos infantis. Além disso, princesas de contos de fadas circularam por toda a BSP, e o público foi recepcionado por ninguém menos que Emília, uma das principais personagens de Monteiro Lobato. Além disso, de hora em hora eram distribuídos deliciosos bolinhos da Tia Nastácia. As crianças adoraram, mas ouvi muita gente grande dizendo: “Nossa, isso tá me fazendo lembrar da minha infância, quando eu ia pra casa da minha tia e ela fazia bolinho de chuva pra mim!“. Eu também voltei no tempo; assim que vi aqueles bolinhos lembrei da minha vó, que fazia pra mim e pra minha irmã quando éramos crianças.

Teve mais. A tenda de eventos foi palco de contação de histórias com vários escritores ilustres: Ignácio de Loyola Brandão, Heloisa Pires, Reni Adriano, Michele Iacocca e Graça Graúna.

Ignácio de Loyola Brandão, autor do romance apocalíptico “Não verás país nenhum“, contou que viu na leitura e na escrita uma forma de lidar com a “rejeição que sofria na escola por ser pequeno, feio e esquisito“. O escritor relembrou que o gosto pela leitura surgiu através do pai, cujo rosto se transformava quando lia. Dentre as leituras que realizou estava a crônica “Homem feliz na chuva“, que faz parte do seu livro “Crônicas para ler na escola“. Loyola Brandão chamou a atenção para o fato de que a poesia está presente em todos os lugares, inclusive na correria de uma cidade grande como São Paulo. Exemplificou com uma curta história sobre um dia em que estava andando a pé pela cidade, quando cruzou com uma senhora que vinha na direção oposta. Ele deu um passo para um lado para desviar mas a tal senhora também deu um passo para o mesmo lado; ele deu um passo para o outro lado e ela, novamente, deu o passo na mesma direção. E assim fizeram algumas vezes até que a senhora olhou para ele e disse: “Muito obrigada, meu senhor, por ter dançado comigo nesta manhã!“.

Antes de contar histórias, Heloisa Pires lembrou que a leitura do passado, assim como os brinquedos que nos divertiam e o quintal da casa onde vivíamos quando crianças, também contribuem para a nossa formação. Por isso é importante que todos os “modelos da humanidade” sejam retratados na literatura. E é por isso que, desde 1995, ela trabalha com literatura e personagens africanos. A escritora leu a história “O comedor de nuvens“, livro de sua autoria. Depois, comentou a importância do contar histórias para o povo africano, que segunda ela, é o que eles mais gostam de fazer. Para completar, lembrou a história da origem da árvore baobá, que há mais de mil anos é contada de boca-a-boca na África. Heloisa ilustrou a história com incríveis imagens do livro “A semente que veio da África“, uma colaboração entre ela, o moçambicano Mário Lemos e o marfinense Georges Gneka.

Já o escritor Reni Adriano iniciou sua participação com belíssimas leituras de crônicas de Rubem Braga, “um dos maiores, se não o maior, cronista brasileiro“. Os textos escolhidos foram: “Meu ideal seria escrever” e “A partilha“. Depois de contar a história “Girabelhinhas“, sobre uma abelha que se apaixona pela foto de um girassol, o escritor perguntou se alguém do público sabia um poema de cor. Paulo Alan, da equipe da biblioteca, leu “A cor do amor“, de sua autoria:

A cor do seu olhar não encontrei na aquarela.
Vi pintarem o mar mas a cor não era aquela.
Já presenciei meu Deus moldando a era,
E vi o homem colher um grão de amor na terra.

Já procurei nos lugares mais profanos.
Até mergulhei no mais fundo oceano.
Mares naveguei ao norte de além-mar.
Fui plebe, fui rei, mas não pude achar…

A cor do seu olhor não encontrei na aquarela,
Vi bordarem o céu mas a cor não era tão bela.
Fiz com que o verão desse lugar à primavera,
Peguei Plutão na mão pra ver de que cor era.

Já sobrevoei o arco-íris colorido,
Já atravessei os bosques mais floridos.
Já me aventurei por terra, céu e mar,
Mas não encontrei a cor do seu olhar.

Somente hoje sei por que não acho a cor.
Jamais encontrarei…
A cor do amor!

Uma das monitoras do Instituto Ecofuturo também recitou um poema, que guardava num livro de recordações de quando tinha 11 anos:

Quem passou pela vida em brancas nuvens
E em plácido repouso adormeceu,
Quem não sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu,
Foi espectro de homem, não foi homem.
Só passou pela vida… não viveu.

Reni Adriano finalizou sua participação com a leitura de um trecho do livro “Lugar“, obra que lhe rendeu dois prêmios: Prêmio Minas Gerais de Literatura 2009, na categoria ficção, e Prêmio Machado de Assis 2010, da Fundação Biblioteca Nacional (3° lugar).

O evento contou também com a presença do escritor e cartunista Michele Iacocca, que contou histórias de dois dos seus premiados livros que não têm palavras, apenas ilustrações: “As aventuras de Bambolina” e “Rabisco – Um cachorro perfeito“. As duas histórias infantis tratam do mesmo tema: rejeição. “Todo mundo já se sentiu trocado um dia“, afirmou Michele. O escritor, de origem italiana, contou também episódios engraçados que vivenciou (por conta de seu nome, as pessoas pensam que ele é mulher). Michele Iacocca fez ainda uma ilustração ao vivo, que arrancou aplausos entusiasmados do público.

Já a escritora indígena Graça Graúna iniciou sua participação com um agradecimento pelo modo como foi bem tratada na biblioteca. Disse que estava preocupada, porque “índio é um bicho desconfiado“. Mas acrescentou que se sentiu bem logo que entrou na BSP e que para o índio, “a intuição é a mensageira da alma“. Afirmou que, infelizmente, ainda existe o preconceito literário, que determina que “índio que escreve livro não é índio“. Graça Graúna leu para os presentes a história do livro “Criaturas de Nanderu“, sobre uma menina que gosta de ouvir histórias, o que ainda nos dias de hoje é algo muito forte nas aldeias.

A exibição de vídeos no auditório foi intercalada com apresentações de parceiros do Instituto Zero a Seis. O médico João Figueiró, presidente do instituto, também estava presente e falou sobre o desenvolvimento da criança.

Através das parcerias com o Instituto Ecofuturo e o Instituto Zero a Seis, a Biblioteca de São Paulo promoveu uma grande festa. Mais de 3.000 pessoas passaram pela biblioteca. Famílias inteiras comemoraram o Dia Nacional da Leitura e o Dia das Crianças na BSP. Foi um feriado alegre, cercado de leitura!

Texto por Denise Trolezi

Fotos por Renato Medeiros

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