Já tomou chuva hoje?

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O contista e romancista Ignacio de Loyola Brandão completa 76 anos no dia 31 de julho. Paulista de Araraquara, tem mais de 40 obras publicadas, entre elas Zero, Não verás país nenhum e O menino que vendia palavras, que rendeu ao escritor o Prêmio Jabuti de melhor livro de ficção em 2008.

 

Ignacio de Loyola BrandãoIgnacio de Loyola Brandão no Dia Nacional da Leitura, evento realizado na Biblioteca de São Paulo, em outubro de 2011, em parceria com o Instituto Ecofuturo (foto: Equipe BSP)

 

Abaixo você encontra uma das crônicas do escritor, que viu na leitura e na escrita uma forma de lidar com a “rejeição que sofria na escola por ser pequeno, feio e esquisito”.

 

 

Homem feliz na chuva

 

Voltava para casa, quando caiu a chuva das quatro da tarde. Violenta, tinha até granizo. Em volta, as pessoas corriam para se abrigar. Meu primeiro impulso foi correr também. Súbito, me contive. Para que correr? Estava a caminho de casa, não tinha compromisso, nada marcado, meus horários são determinados pelas minhas conveniências. Desde que abandonando patrões, empregos fixos, optei por tentar viver só de livros e algumas colaborações eventuais para a imprensa. Não me preocupo mais se é sábado, domingo, segunda. Pouco importa se a terça-feira vai ser feriado, portanto posso fazer uma ponte na segunda, ganhando um fim de semana mais comprido. Vou tomar chuva, decidi.

Continuei, debaixo da tempestade. Em um minuto, a camiseta molhada, calças ensopadas, bolsos cheios de água. Não estava de sapato e sim com uma sandália havaiana, muito brega. Andei devagar, deixando-me molhar mais e mais, até que não havia milímetro de meu corpo que não estivesse tomado pelas águas. Elas escorriam da cabeça, ombros, braços. Frias, estimulantes. Quatro e meia da tarde, pleno dia da semana e eu na chuva. Esta sensação só as crianças sabem o que é, os adultos perderam.

Pensando em criança, tomei outra resolução. Me meti na enxurrada que descia grossa pela rua Haddock Lobo. A esta altura, as primeiras águas tinham arrastado a sujeira, de modo que a enxurrada era límpida. Fui descendo, feliz da vida. Então, o carro esporte, importado, parou ao meu lado. O motorista abriu o vidro:

- Você é o Loyola, não é?
- Sou, respondi, contente por ter sido reconhecido até na chuva.
- Sobe aqui, te levo. Senão, vai ficar todo molhado.
- Já estou.
- Bem, sobe, não fica tomando essa chuva.
- Vou molhar todo seu carro.
- Não faz mal, o carro a gente enxuga. Sobe, que isso vai te fazer mal!

Sujeito bom, querendo praticar uma boa ação. Mas falava como os pais e mães da gente, na infância. Não faça isto, não faça aquilo. Tudo fazia mal: andar na chuva, tomar leite com manga, comer banana e laranja, olhar no espelho depois do almoço, tomar banho e sair na rua (entortava a boca), comer pepino e ir dormir. O motorista simpático era um homem de seus 30 anos, bem-vestido, gravata. O paletó dobrado com cuidado sobre o banco.

- Não vou entrar não!
- Entra, não pode ficar na chuva.

Engraçado o condicionamento em que a gente vive. Não pode tomar chuva. Nem querendo.

- Não quero entrar, entende? É uma decisão.
- Prefere ficar molhado?
- Prefiro.
- Molhado do jeito que está, não te incomoda?
- Nem um pouco, está uma delícia. Já tomou chuva assim, de tarde?
- Nunca.
- Nem uma vez?
- Não sou louco!
- Nunca teve vontade?
- Bem, acho que tive.
- Venha experimentar. Olha, a água correndo, fazendo cócegas nos pés, acariciando as pernas. Estou quentinho por dentro. Parece que estou flutuando.
- Deve ser bom.
- Bom? É ótimo.
- Sua cara é feliz, você está mesmo contente por estar aí. É, acho que tem razão! Se molhar numa chuvarada destas. Até que seria um programa.
- É a liberdade, meu caro!
- Seria engraçado chegar pingando feito um pinto no escritório. Iam ficar assustados, me internar.
- Então, por que não vem?
- Não posso.
- Claro que pode. Encosta o carro, abra a porta e tome chuva.
- Não é fácil assim.
- Não é difícil. O que te segura?
- Já imaginou? Não dá. Posso querer, estou querendo, mas é impossível.
- Depende de você.
- Dependo de muita coisa.
- Venha. Não quer vir?
- Quero, mas não posso.
- Falta coragem?
- Tenho coragem, o problema é outro.
- Qual é?
- Preciso voltar ao escritório, tenho uma reunião às cinco. Um mundo de gente depende de mim.
- Chega molhado.
- E perco clientes?
- Os clientes valem menos que uma chuva.
- Mas um dia, tomo chuva.

E se foi. Seco e infeliz. Tenho certeza que naquela tarde, um homem levemente inquieto, amargurado, presidiu uma importante reunião. Pensando talvez que seria melhor estar na chuva, os pés metidos na enxurrada, encharcando os mocassins italianos superengraxados. Quanto a mim, continuei pela chuva afora, livre e independente. Porque hoje em dia sou isso. Um homem em disponibilidade, sem empregos, sem alugar minha cabeça, dono do meu tempo, minhas decisões. E isto me custou apenas um ato de coragem. Me custou pouco, na verdade. Bastou dizer não a tudo que é estabelecido. 

 

Texto extraído da obra Crônicas para ler na escola

 
 

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