Bate-papo com Laerte na BSP

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A quadrinista Laerte Coutinho participou neste sábado, 13 de dezembro, do Segundas Intenções, programa que fez parte das atividades relacionadas ao mundo dos quadrinhos durante todo o fim de semana na BSP.

Com mediação do jornalista Manuel da Costa Pinto, Laerte contou como começou a desenhar, sobre seu processo de criação, rotina de trabalho e a mudança de gênero. Confira os melhores momentos:

 

Começo

“Meu ensaio profissional foi por volta de 1972, 73, com a revista Balão, que editei junto com o Luiz Gê e os irmãos Caruso. Naquela época tínhamos a herança do Pasquim, mas também tínhamos acesso ao underground americano com as revistas Bondinho e Animal , que publicavam o que estava sendo feito fora do país. Depois comecei a vender ilustrações para o Gazeta Mercantil e para as revistas Placar e Banas, que começaram a ser bem aceitas até que o Angeli, que já estava na Folha com a página Vira-lata, me convidou para desenhar. A fazer tira mesmo foi para o Correio Braziliense. Em 2005 eu parei de fazer personagens, exceto o Hugo/ Muriel, e comecei a desenhar mais livremente, como quando eu estava no início da carreira, mas o profissionalismo te faz tomar procedimentos meio obrigatórios, pegar maneiros, etc.”

 

Rotina

“Eu tenho trabalhado bem pouco, na real. Eu penso muito, mas tenho ficado cada vez menos na posição ‘trabalho’, desenhando. Quer dizer, eu faço sete tiras por semana, mais o Laertevisão [para o caderno Ilustrada da Folha de S.Paulo], a charge de terça-feira [para a segunda página da Folha de S.Paulo] e a Lola [para o caderno Folhinha, também da Folha], tá bom, né? A verdade é que eu diminuí bem o ritmo. Antes tinha época em que eu não via meus filhos e agora eu vejo o Rafael [Rafael Coutinho, filho e também quadrinista] fazendo isso.

 

Novidades

“Eu procuro acompanhar o que há de novo, mas é muita gente nova, muito mais de quando eu comecei. E hoje o alcance é bem maior com a internet, qualquer um pode fazer um blog, um site. Na minha época a gente fazia um portfólio mesmo e ia batendo de redação em redação oferecendo os desenhos. Mas eu sinto que há uma sintonia entre as gerações, não tem essa de grandes mestres e pessoas novas. A tecnologia não destruiu a sintonia, pelo contrário, aumentou.”

 

Literatura

“Na casa dos meus pais tinham muitos livros e eu sempre tive muito proveito emocional das histórias que lia, via na TV e em filmes. O meu personagem Minotauro, por exemplo, vem muito do que eu li em Monteiro Lobato, quando ele falava de mitologia. Fernando Pessoa está numa história do Piratas do Tietê e tem uma outra que se chama A insustentável leveza do ser, mas que não tem nada a ver com o livro, usei apenas a carga dramática da vida para a história.”

 

Projetos

“Participei recentemente de um clipe da Filarmônica de Pasárgada contra essa coisa do fiu fiu na rua. Participamos eu e o Tom Zé, estou vestida de açougueira, jogam sangue na minha cara…. e ano que vem estreia um programa de entrevistas comigo, que se chamará Transando com Laerte, na TV Brasil.

 

Gênero

“Foi como quando eu estudava Música na faculdade e um professor me falou, ‘você não tá vendo que música não é a sua?’ Uma amiga precisou me falar, ‘você não vê que você gosta de se vestir de mulher?’ E eu, ‘ah, é!’ É uma condição, uma natureza, uma forma de expressão. Hoje meu neto me pergunta, ‘vô, você é mulher?’ E eu, ‘sou’.”

 

Realizações

“Não me sinto realizada nem como homem, nem como mulher, nem como ser. Me sinto no bonde andando. Não trabalho com esse conceito de felicidade, é absoluto demais… O que eu tenho são etapas de satisfação, com o trabalho por exemplo. Mas estou insatisfeita como eu me expresso na transgeneridade. Eu estou em busca de algo mais verdadeiro, diferente do que eu fazia antes, quando me escondia do que eu era.”

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