Laerte no Segundas Intenções

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 Post atualizado em 27 de fevereiro com o vídeo na íntegra:

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Pela terceira vez, a cartunista e chargista Laerte esteve na Biblioteca de São Paulo (BSP) para conversar com o público e contar a sua história. E este primeiro Segundas Intenções do ano foi mais do que especial: além de marcar o aniversário da biblioteca, teve auditório lotado, com muitas perguntas do público, que queria saber das suas opiniões e de seu trabalho. A moderação foi do curador Manuel da Costa Pinto, colega de Laerte na Folha de S. Paulo.

O jornalista começou o encontro deste sábado, 17 de fevereiro, abordando a militância da autora em questões de gênero, mais destacadamente a transgeneridade, tema que é abordado no documentário Laerte-se, dirigido por Eliane Brum e Lygia Barbosa da Silva e disponível na Netflix.

Manuel afirmou que as gestões de gênero e LGBTs foram muito relevantes nos anos 1960, mas que nas décadas de 1980 e 1990, ficaram adormecidas, sendo retomadas com força a partir dos anos 2000. Laerte concorda em parte. Disse que a presença da Aids afetou a comunidade gay e gerou uma tentativa de reconstrução, no sentido de resistência e de acomodar outras vozes, como as lésbicas e transexuais.

E que ela passou por esses períodos históricos como momentos de redescoberta. “Sofri pouco preconceito, pouca homofobia. A não ser a violência de ficar 34 anos sem transar com homens. A nossa cultura perpetua uma violência contra os homossexuais e as pessoas transgênero. Isso é a parte mais visível do preconceito”, comentou. “Assumi ser gay com os filhos fora de casa, tive apoio, carinho e afeto. Essa não é a experiência da maior parte da população. A trans no Brasil é morta, assassinada, excluída de laços familiares”.

Laerte no Segundas Intenções // Crédito: Ricardo Matsukawa

Laerte no Segundas Intenções // Crédito: Ricardo Matsukawa

Na sua obra, essa transição também foi sendo elaborada. Em Los Três Amigos, a personagem que a representa é gay e transformista, ainda na década de 1980. Nos anos 2010, as tirinhas de Hugo/Muriel brincam com os padrões de gênero, um personagem crossdresser que alterna entre masculino e feminino. Mas a morte do filho Diogo em um acidente de carro aos 22 anos trouxe outro impacto na sua obra.

“Isso foi em 2005. Fiquei um mês sem publicar e voltei com um trabalho diferente. Esta é a parte mais radical. Passei a ser mais experimental, metafísico e parei de publicar personagens”. Nessa época estava se descobrindo como pessoa transgênero, começando a fazer experiências como travesti.

Sobre umas das tiras de maior sucesso, Piratas do Tietê, ressalta a anarquia e a quebra de uma abordagem romântica do banditismo. Fala que a visão dos piratas que temos hoje é originada do século XVIII, por conta da influência naval, militar e economia da Inglaterra. Que sua releitura é moderna, humorística e uma visão satírica do Brasil e da cidade de São Paulo.

A cartunista também fala das influências. Na formação, leu clássicos de Monteiro Lobato, Machado de Assis, Érico Veríssimo e Jorge Amado. Hoje, gosta da canadense Margaret Atwood e do sul-africano J. M. Coetzee. “Acho bárbaro nele é o questionamento do bem e do mal. Ele mostra a origem múltipla e multifacetadas das coisas. É possível conectar com o momento de hoje. Como posso entender o Baiana System e a Jojo Todynho sem pensar nisso? Como vamos saber de onde vem o tiro? As coisas não são uniformes, unânimes e imediatas. Vivemos retrocessos no campo moral, com a tentativa de tirar alguns direitos. Aqui no Brasil temos tumultos, ameaças, e, ao mesmo tempo, avanços”.

Laerte também comenta sobre projetos futuros, como uma HQ com título provisório de A longa. É uma referência a sua maior obra em extensão: atualmente tem cerca de 130 páginas e vai contar 40 anos de história. De cunho autobiográfico, relata as transformações da sociedade em sexo e política. “Eu não sou um personagem, mas relato parte da história em que vivi de 1967 até hoje. Esta historiona me traz novas leituras em várias áreas”.

Laerte no Segundas Intenções // Crédito: Ricardo Matsukawa

Laerte no Segundas Intenções // Crédito: Ricardo Matsukawa

Quando perguntado sobre o debate entre o politicamente correto e a censura, afirma que seu olhar mudou, mas sem patrulha. “A crueldade faz parte do humor, mas não precisa estar. A risada é um momento de relaxamento e identificação. Creio que existam centenas de jeito de fazer humor. Sou tão contra a censura que acho que deviam deixar o bloco de carnaval do Porões do DOPS sair. Sei que essa frase é polêmica. Mas se é difícil suportar um bloco provocador e fascista, a censura é a proibição do debate, a ausência do debate”, comenta.

Outro projeto em que está envolvida é a Baiacu, em parceria com Angeli. Trata-se de um livro e revista de 300 páginas, aliado a um portal e uma residência artística. A residência é na Casa do Sol, em Campinas, que pertenceu a Hilda Hist, autora que conheceu. Lá, dez escritores e desenhistas convidados passam duas semanas e criam uma obra exclusiva. A ideia agora é aumentar a periodicidade.

Ao fim, Laerte agradeceu o convite de participar do aniversário da BSP. “A biblioteca é um ponto de encontro de ideias e de pessoas. Parabéns pelos oito anos e por essa festa”.

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