A memória é fonte para textos de participantes de oficina na BSP

0
Foto: Equipe SP Leituras

Foto: Equipe SP Leituras

Oficina Tecendo Palavras – Entre a Memória e a Ficção resultou em textos dos participantes dos encontros. Confira!

A seguir, estão reunidos alguns desses conteúdos apresentados durante a oficina, comandada pelo premiado escritor Marcelo Maluf, ou criados depois do curso concluído:

Maria Vitória:

carretel

Do barbante aos trapos

Ao fundo da relva juntamente com seus abandonos, presente num novo ambiente, seminovo, ausente da visão dos pais, presente de corpo com sua fiel companheira de trapos. Cabelos enegrecidos, feitos de barbante, olhos de botão marrom com nuances verdes, vestes farroupilhas desgarradas de luxo.

A infância primária toma o encalce do apego, do precisar, da carência, do medo, da dor, da saudade, do sentir palpitar…

Cresci e, um pouco mais madura, não me desgarrei. Ainda tinha o velho hábito de arrastar às escondidas meu pequeno e bom corpo de trapos. Já aos doze, de namorico com Diego, o garoto mais tímido, porém, o mais interessante da sexta série, ainda assim me tomava ao peito à proteção dos panos de Carolina. A boneca que me acalma os medos e os prantos, quando ninguém mais no mundo me enxerga tão só.

- Ei, olhem só, a Rosi ainda brinca de boneca. Ela dorme abraçadinha a noite toda com sua bonequinha.

Me sinto traída, violada, magoada, estarrecida. A minha melhor amiga ali, gritando aos ventos meu segredo tão intimo, tão envergonhado. Sinto o fôlego pesar nos meus pulmões ainda no fundo infantis, uma torrencial cascata de suor se mescla com o transbordar das lágrimas. Sinto a língua tocar o céu da boca de forma pegajosa.

Passo a odiar, Débora. Passo a odiar minha devoção à Carolina. Passo a odiar então, meu medo de ainda ser uma já crescida criança com amor aos barbantes e aos trapos.”

trapos

Bonequinha de trapos

Escutei bem o que Rosi tinha para me dizer. Enquanto a escutava, tentava martelar na minha mente a tal “boneca”. Peguei bem os olhos dela quando ela tentou camuflar os sentimentos. Ela rodou os olhos. Deu pequenos sorrisos. Naturalizou e depois se fez muda. Seguiu…

Tentei contar a Rosi uma história parecida, porém, nada igual. Falei pra ela do meu primeiro porre aos doze anos no aniversário de quarenta e dois anos de minha mãe, do meu pega-pega com as outras crianças, de eu achar outra garota bonita e, sem querer, confessar isso a figura de Dona Marta. Soltei no ar…

No texto, trouxe a boneca de panos de Rosi de volta à vida. A coloquei rente ao meu peito e lhe sussurrei aos ouvidos de trapo: “Ei, bonequinha. Diga-me como a Rosi se sente”. Ironicamente, ela me viu como um ser “divino” e me confessou os segredos de Rosi, aqueles muito bem escondidos, aqueles muito bem parcialmente enterrados.

Rosi descreveu como uma leveza sutil e poética a história marcante de minha própria vida. Uma frase ou outra eu mudaria, não por não ser condizente com a verdade, mas porque eu prefiro que ela seja contada de uma forma um pouco mais crua, um pouco mais sofrida, um pouco mais cinza. De tudo, estava retratando há mim muito bem.

Era minha vez de ler. Fiquei acumulando saliva entre os dentes e o céu dá boca. Minha pressão arterial subiu. As lentes de meus óculos se embaçaram. Quis correr, mas meus pés tinham dormido. Tentei não gaguejar e não atropelar as palavras: “falhei”.

Rosi chorou. Tentei não ser, mas me sai meio poética. As murchas palmas vieram. Rosi ainda chorava, sentida…

Eu não fui a história de Rosi. Eu fui a boneca.”

Gustavo de Castilho Freixeda:

numeros

“3.26, 49

Três idades-chave: 3, 26, 49.

26 foi a mais alta a que meu pai chegou; 3 era a minha quando ele morreu; e 49 é a de agora, a idade em que persisto na ferida.

Meu pai, caminhoneiro, fazia longas viagens e, de acordo com os costumes da época, viajava de maneira inconsequente. Apesar de profissional, papai não usava cinto e, vítima da própria imprudência, isso lhe foi fatal: uma colisão besta acabou lhe tirando a vida, ainda que com todo aquele viço que era dele e de seus 26 anos.

A mensagem que o pai morreu não chega numa lufada só. A mensagem que o pai morreu chega violentamente aos poucos.

Por isso estou aqui, décadas mais tarde, para relatar um evento acontecido no velório dele, 46 anos atrás. Por isso até hoje lamento pelas ironias da vida, que parecem especialmente crueis comigo, pois aquele acidente matou meu pai mas não matou o caminhãozinho de brinquedo sobre o banco de passageiro, um presente destinado a mim.

Aos 3 anos, segurando aquele presente que me fora dado na mesma sentença de “papai morreu”, mamãe me levantou para que eu disesse adeus a ele.

Até ali, o choro ao meu redor não fazia sentido. Até ali, a morte anunciada não tinha corpo. Sem saber, até ali eu contemplava uma vida sem demônios.

Mas então, decerto que com as melhores intenções, mamãe fez aquilo, me forçou a encarar o caixão aberto. O impacto foi imediato: vi um humano exangue; vi a morte em quem era meu exemplo de vida.

Meu caminhãozinho de pronto caiu e se espatifou. Desviei meus olhos tenros da mortalha que um dia fora meu pai e fixei meu olhar no brinquedo aos pedaços pelo chão.

Fixei com tamanha vontade que meus olhos, vidas mais tarde, ainda não se desviaram dali.

Fixei a ponto daquela cena não sair mais de mim, me acossando até hoje aonde vou, reverberando em cada luz e em cada sombra.

Fixei a ponto de morrer, logo aos 3 anos.

Fixei a ponto de viver, agora aos 49.”

Marcelo da Silva Antunes:

chuva

Chuva de prata

A vizinhança toda correu pra ver, foi, foi sim, eu me lembro. Era pequena, mas eu me lembro muito bem, sim, eu me lembro. Caía do céu uma chuva prateada, eu me lembro. Eram lâminas.

Na calçada de pedrinhas, as lâminas ficaram por cima do cinza. O clarão que vinha do céu era tão forte, que parecia o sol, posso dizer que aquela noite fez sol, talvez por isso mamãe diga que foi de dia.

Foi de noite, eu me lembro. O portãozinho de casa ficou todo cheio daquelas lâminas naquela noite. Era tão velhinho e ficou tão bonitinho. Se fosse de dia ele estaria fechado, foi de noite, viu.

Mamãe disse que não foi chuva, foi avião que jogou, foi comemoração do tal centenário, acho, alguma coisa assim, ela disse.

Nada disso, foi chuva. Chuva de prata que caiu do céu pra comemorar alguma coisa alegre.”

pó

“Guloseima

- Leite em pó, quero leite em pó.

- Menino para de me encher o saco.

- Leite em pó, mãe, por favor.

- Eu não vou falar de novo.

- Um pouquinho, mãe, vai por favor.

- Vai tomar com água?

- Não, mãe, quero no potinho.

- Devia te mandar lá pra casa de suas tias, onde eles tão comendo papelão com água. Seu mal educado.

- Quando seu pai chegar eu te dô um pouco.

- YES.

- Se ficar quieto e me ajudar lavar a louça. Pega o pano ali pra mãe.

- O pai vai demorar muito? É que eu tô ficando com sono.

- Pega o potinho ali que eu coloco, só um pouco.

- Mãe, você é a melhor mãe do mundo.

- Sou, né?

- Mãe, o presidente do Brasil come leite em pó?

- Que pergunta, menino. Cada uma.

- Acho que sim, porque se não, não daria esses pacotes na igreja e na escola.”

Acesse o link para saber como foi o início da oficina: https://bsp.org.br/2018/04/20/memoria-e-emocao-marcam-oficina-de-escrita-literaria/

Compartilhe

Sobre o Autor

Deixe um Comentário