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Érico Nogueira compartilha dicas para escrever poesia e referências

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Foto: Adriana Nogueira.

Foto: Adriana Nogueira.

O professor Érico Nogueira, que comanda a oficina online “O poeta é um fazedor:  ritmos antigos e versos contemporâneos”, dentro da programação de janeiro da BSP, compartilhou algumas de suas referências literárias e deu dicas para quem quer produzir textos no gênero. Ele, que atualmente é pesquisador visitante na Universidade de Oxford, parte da análise da obra do poeta romano Horácio nas aulas e visa, assim, que os alunos tenham contato com a técnica, refinando o pensamento e afinando a imaginação. Reunindo teoria e prática, a atividade (com quatro encontros, no total – iniciados em 5 de janeiro e que vão até o dia 14 – inscrições encerradas) faz parte do projeto Literatura Brasileira no XXI, realizada em parceria com a Unifesp. A ideia é que textos produzidos pelos participantes na oficina sejam publicados no site da iniciativa, que contém vários conteúdos que podem interessar que gosta de literatura. Para acessá-lo, basta clicar aqui.

Considerado um dos mais importantes poetas brasileiros da atualidade, Érico foi capa da The Warwick Review em 2014 e finalista do Prêmio São Paulo de Literatura por Contra o Bicho da Terra tão Pequeno (2018) e do Prêmio Jabuti por “Poesia Bovina” (2014) e “Dois (2010). Vencedor do Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura por “O Livro de Scardanelli” (2008), ele é professor de língua e literatura latinas na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Atualmente, estuda e traduz o poeta britânico Geoffrey Hill. Confira as dicas e referências no bate-papo reproduzido a seguir:

Quais são as cinco dicas que daria para quem quer começar a escrever poesia?

Essa pergunta é difícil de responder – mas vou tentar, com o máximo de exatidão de que sou capaz. Note-se que vou me ater a uma descrição quanto possível objetiva da vocação e do ofício, de que não sei se sairão propriamente cinco conselhos ou sugestões. Bom, acredito que a primeira providência que o aspirante a poeta deva tomar é fazer um impiedoso exame de consciência. Isso mesmo. Com o mesmo grau de escrúpulo e detalhe com que se faz o exame de consciência antes de uma boa confissão. Deve prestar atenção em si, ser objetivo, preciso, e examinar se tem paixão pela leitura, se tem certa habilidade inata com as palavras, se ama a própria língua, se tem uma curiosidade vital, irreprimível, por línguas estrangeiras, se está disposto a estudar muito, e dedicar sua vida a um objeto esquivo, a uma sombra impalpável, se está ciente de que o ofício é duro, paga mal, e que o reconhecimento, quando vem, é absolutamente fortuito e aleatório, e não tem ligação direta com a qualidade do que você produz – e assim por diante. Se, depois disso, o aspirante ainda assim quiser ser poeta, a vida vai ensinar-lhe como proceder, e não há necessidade de conselho nenhum. Eu obviamente descrevo o caso do poeta profissional; quanto ao poeta amador, ou bissexto, que escreve versos ocasionalmente, e sem grandes pretensões artísticas, esse aí geralmente sabe muito bem o que quer, e como fazer o que quer, já que a poesia é um seu dileto passatempo.  

Qual a sua opinião sobre o “lugar” da métrica na poesia?

Poesia pressupõe ritmo, que pode ser regular ou irregular, constante ou variado. Métrica é medição do ritmo, é aferição do ritmo, e pode ser teórica, como nos tratados de versificação, ou simplesmente prática, elaborada em poemas. Todo poeta, com maior ou menor grau de consciência técnica e apuro rítmico, mede e metrifica o que escreve. Com isso quero dizer que, a rigor, não há poema sem métrica, porquanto o ritmo, mesmo capenga, do poema mais reles e chinfrim que se possa imaginar, sempre pode ser medido e metrificado. Agora, o que ocorreu depois da gloriosa Semana de 22 aqui no Brasil, e já o grande Manuel Bandeira (exímio conhecedor de métrica, aliás) deplorava, é um desprezo irresponsável pela tradição e pelas formas tradicionais, uma espécie de execração da rima e dos tropos e da “métrica” entendida como ciência e habilidade de compor formas fixas, como se não fosse mais necessário conhecer ou saber fazer um soneto ou uma sextina, ora vejam… O resultado está aí: gerações e gerações de autoproclamados “poetas” que não sabem o básico do seu ofício – algo como gerações e gerações de carpinteiros que, desejando romper com o passado e fabricar o absolutamente novo, desaprenderam como se faz uma mesa, para só produzir geringonças. Esse meu curso, portanto, ainda que breve e incompleto, é uma espécie de re-alfabetização em poesia. 

Quais são os pilares da obra do poeta romano Horácio (que está no centro da teoria dos encontros da oficina) e o que podemos aprender com eles?

Há bibliotecas sobre Horácio, que é um dos autores mais lidos, mais influentes, mais importantes do Ocidente e do mundo. Ele é daqueles autores que sempre serão lidos e estudados – isto é, enquanto o homem for homem, e não se transformar no cão de Pavlov que as redes sociais, a propaganda, os governos, e os meios de comunicação de massa querem que ele seja. Enfim: enquanto formos humanos, continuaremos a ler e a aprender com Horácio. É quase impossível resumir em duas linhas por que sua obra é tão importante. Seguindo Montaigne, acho que a sua principal característica é o indestrutível bom senso, o riso leve e inteligente, a desconfiança de si, a sadia desilusão. Mas isso é o lado filosófico da coisa. Do ponto de vista poético, Horácio é o poeta “numeroso” – isto é, “de muitos ritmos” – por excelência. É o mestre da forma, da perfeição técnica. É isso o que procuro transmitir aos alunos nesta oficina. 

Quais os três livros que daria como referências neste gênero literário e como sugestões para quem quer se aprofundar no tema poesia?

Vamos entrar na brincadeira, gostei. Supondo que sejam três e não três mil, não dá para querer ser poeta em português sem ler “Os Lusíadas” e as “Rimas” de Camões, a “Obra Poética” de Fernando Pessoa, e a “Nova Reunião” de Carlos Drummond de Andrade. Isto é, Camões, Pessoa e Drummond são os maiores poetas de língua portuguesa, sem choro nem vela. Sem eles, não dá para viver. – Dos poetas em atividade hoje no Brasil, destaco os recentes “As Asas do Albatroz”, de Marco Catalão; “Arte Nova”, de Wladimir Saldanha; e “Um Sol de Bolso”, de João Filho. 

Sobre seu trabalho na literatura, qual seria o livro que indicaria para que o leitor começasse a conhecer sua trajetória tão premiada?

Acho que meu segundo livro – não por acaso intitulado “Dois” –, sendo o mais curto de todos, contém, de forma concentrada, a maior parte de minhas obsessões artísticas: o dever moral de atualizar a tradição poética, o culto dos poetas mortos, a tensão entre passado e presente, a investigação do significado da vida, o riso… Motivos esses que orquestro com a maior perícia técnica de que sou capaz. Se não encontrarem esse livro (parece que está esgotado), sugiro que esperem um pouco, já que o meu mais recente –”Aqui, Ali, Além” – está no prelo, e sairá em meados do ano pela editora Filocalia.

Sabemos que atualmente é pesquisador visitante na Universidade de Oxford, onde estuda e traduz o poeta britânico Geoffrey Hill. O que poderia nos dizer sobre este trabalho em desenvolvimento?

Sir Geoffrey Hill (1932-2016) é poeta dificílimo. Quando digo a meus amigos britânicos que o estou traduzindo em português, eles invariavelmente me respondem que “Nós também temos de traduzi-lo em inglês” – por aí vocês já veem. Meu interesse em sua obra se deu justamente por causa da métrica. Em seu livro “Odi Barbare” (assim mesmo em italiano), que é homenagem aos poetas Sir Philip Sidney (1554-1586) e Giosuè Carducci (1835-1907), ele faz uso da estrofe sáfica, que é uma das mais utilizadas por Horácio em suas “Odes”, e isso chamou de cara a minha atenção, quando o livro foi publicado em 2012. Eu já tinha lido vários livros do Hill por indicação do meu finado amigo Bruno Tolentino (1940-2007), um dos grandes poetas da língua também, mas quando descobri sua relação com Horácio aí comecei a lê-lo profissionalmente. Traduzi as “Odi Barbare” mais uma vintena de poemas que integrarão uma antologia. Ler é conversar – e é uma satisfação conversar com gente inteligente. Aproveito para agradecer a colaboração de Chris Miller, sem o qual não teria podido traduzir com o grau de exatidão que creio ter alcançado, e o apoio do professor Stephen Harrison, do Corpus Christi College, aqui da Universidade de Oxford.  

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