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Em bate-papo, Cíntia Moscovich conta seu caminho da poesia à prosa

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Cíntia Moscovich se descobriu escritora aos 35 anos. Mas o convívio com a literatura faz parte de sua vida desde sempre. Neta de imigrantes judeus da Bessarábia, a atual Moldávia, cresceu num ambiente em que a leitura era considerada a principal ferramenta na educação das crianças. E foi assim que Cíntia e seus irmãos cresceram: à base de livros. E, ainda, da variada comida sefaradita e das histórias contadas por seus avós, cidadãos russos de segunda classe que atravessaram o oceano fugindo de perseguições religiosas e em busca de uma vida melhor.

A autora gaúcha, cuja obra se debruça sobre o universo feminino e o peso da tradição judaica, participou do Segundas Intenções de junho e no bate-papo com o jornalista Manuel da Costa Pinto lembra, entre gargalhadas, que ainda bebê recebeu de presente de um amigo de seu pais a coleção completa de Machado de Assis. A decepção da mãe – que esperava um farto pacote de fraldas descartáveis – foi completa, mas já indicava o destino da criança. Irmã mais velha, tinha costume de ler em voz alta Monteiro Lobato, Maurice Druon (O menino do dedo verde) e as aventuras de Tarzan e Robinson Crusoé para os irmãos menores.

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“Conseguir dosar o quanto contar e quanto esconder é uma briga de foice”, diz Cíntia sobre o conto. Foto: reprodução / Facebook

“A tradição judaica me marcou. Eu lia abismada autores como Babel, Cronin, Singer que tratam da perseguição e também falam das shtetl – pequenas aldeolas onde eram confinados os judeus. O meu shtetl era o Bom Fim (bairro porto-alegrense onde moram predominantemente judeus)”.

Poesia e prosa

Cintia formou-se em jornalismo e literatura e é autora de sete livros, de diversos gêneros, mas, sobretudo, é contista. Entre suas obras constam a narrativa de estreia Duas iguais, vencedora, em 1995, do Concurso de Contos Guimarães Rosa, do Departamento de Línguas Ibéricas da Rádio France International, de Paris, posteriormente transformada em romance; a coletânea de contos Reino das cebolas (1996), indicado ao Prêmio Jabuti e Anotações durante o incêndio (1998), pela qual recebeu o Prêmio Açorianos na categoria de Contos.

Influenciada por textos de Carlos Drummond de Andrade e Fernando Pessoa, entre outros, deu seus primeiros passos na literatura através da poesia. “Eu tinha plena ideia de que o que eu escrevia não correspondia ao meu desejo. Aquilo era uma droga”, diz.  Por intermédio de uma amiga,  toma conhecimento da oficina de criação literária na Pontifícia Universidade Católica (PUC – RS), coordenada por Luiz Antonio de Assis Brasil, e a partir de 1996, depois de integrar o grupo por um ano, decide dedicar-se à prosa. De tudo que aprendeu – e pratica – discorre sobre o conto como uma narrativa em movimento, que não pode parar.  O desafio, segundo ela, é  “conseguir dosar o quanto contar e quanto esconder . É uma briga de foice.”  Para entender o significado  desse subtexto, o escritor argentino Jorge Luis Borges é um bom exemplo. Outra inspiração, é Clarice Lispector. “Aos 24 anos, quando li o conto “Amor”, fiquei completamente pasma com a delicadeza dela ao tratar a linguagem, o poder do olhar dela, da personagem ter, de repente, um alargamento de consciência através do olhar. A Clarice te convida a ler com todos os sentidos. E eu passei a escrever  com a todos os sentidos”.

Ficou com vontade de ler uma obra de Cíntia Moscovich? O acervo dispõe dos seguintes títulos: Por que sou gorda, mamãe? e Essa coisa brilhante que é a chuva, sendo este em versão digital.

Veja ou reveja aqui o bate-papo.

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