Afonso Borges: histórias, afetos e “o vento das palmas”
14 DE abril DE 2021
Para contar a história do Sempre um Papo, seus melhores momentos e os desafios dessa trajetória, participaram como mediadores a jornalista Paula Rangel e o escritor e tradutor Eric Nepomuceno, que foi, ao lado de Frei Beto e Fernando Morais, um dos primeiros entrevistados do programa, quando, em 1986, apresentou uma edição revisada do seu livro “Cuba: anotações sobre uma revolução”. Na abertura do Segundas Intenções, o diretor executivo da SP Leituras, organização social que gere a Biblioteca de São Paulo (BSP) e a Biblioteca Parque Villa-Lobos (BVL), Pierre André Ruprecht, destacou sua incrível marca tanto de longevidade quanto de audiência. O encontro online foi transmitido na página do Facebook da BSP e você pode assistir aqui.
Mineiro de Belo Horizonte, nascido em 1962 e bom contador de histórias, Afonso diz que a vida lhe ofereceu oportunidades. A primeira delas foi um emprego como bancário. Isso facilitou as coisas e, um ano depois, largou o salário certo pelo sonho.
O início
“Mas de onde surgiu a ideia brilhante de achar que seria interessante, comercial e longevo juntar o autor com o público?”, perguntou Paula. Eram os anos 80 e o país vivia a anistia, com os presos políticos e as pessoas banidas pelo regime militar retornando ao Brasil. “E eu comecei o Sempre um Papo com este gancho de colocar as pessoas para conversar, era uma geração extremamente atuante na construção desse possível país pós-ditadura”, conta Afonso sobre o programa, que teve o nome sugerido por Frei Beto.
Bem no início, os eventos eram realizados em bares, “mas a química ‘debate e bebida’ às vezes terminava em pancadaria. E ter que controlar as conversas inflamadas acabou me tornando um mediador melhor”, conta.

Orelhões
Tudo era realizado com poucos recursos e um exemplo emblemático são as ligações feitas com fichas telefônicas a partir de orelhões públicos para as editoras, para convidar os escritores que elas representavam a participar do programa de entrevista. Dentre as editoras, a recém-lançada Companhia da Letras era a única a aceitar ligações a cobrar. A logística incluía passagens aéreas para o local do encontro, patrocinadas pela Varig, translado dos autores do aeroporto até o local do evento feito pelos amigos e hospedagem na casa do próprio Afonso. “Formavam-se filas de diversos quarteirões com gente querendo ouvir os escritores”.
O improviso também fazia parte. No final dos anos 80, o jornalista Fernando Gabeira, recém-chegado do exílio, estava em Goiânia escrevendo uma série de reportagens sobre o Césio 137 para a Folha de S. Paulo. Recebeu o convite para participar do Sempre um Papo e, em poucas horas, estava Afonso a colar cartazes em bares e mandar fax para os amigos para divulgar um evento que reuniu 800 pessoas.
Na sequência, Afonso, que tinha formação em jornalismo, passou a dar status de show aos eventos literários. Assim, passaram a fazer parte do pacote de divulgação cartazes, anúncios em jornais e spots de rádio. Fazia um evento de qualidade. “Na minha primeira participação no Sempre um Papo, tinha o Darcy Ribeiro na plateia”, conta Eric Nepomuceno.
Ao longo de três décadas, alguns autores como Raduan Nassar e Rubem Fonseca, mais recatados, resistiram ao convite e alguns poucos, como Millôr Fernandes, furou no dia combinado. Outros, como José Saramago, se impressionaram com a adesão do público. Quando o escritor português estava na coxia no Palácio das Artes, teatro construído por Oscar Niemeyer no centro de Belo Horizonte onde aconteciam os debates, antes da sua entrada no palco, disse: “Afonso, é a primeira vez que eu sinto o vento das palmas”.
Sobre dificuldades, o empreendedor cultural diz que pensou dia sim, dia não, em mudar de vida, mas nenhum convite recebido o fez mudar a rota. “Sempre fiz o que gostava”, diz Afonso. Segundo ele, esses encontros trazem a experiência fantástica da convivência e do afeto, mesmo no campo virtual. O público quer aprender e se interessa pela experiência metafísica do escritor. “Neste contexto de pandemia, a arte e todas as camadas da criação, é que vão dizer para o mundo como e para onde caminhar”.
No canal Sempre um Papo do Youtube você pode assistir mais de 400 programas gravados.
Notícias
Carnaval 2026: A literatura ganha a avenida
Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo, Rita Lee e Paulo César Pinheiro são homenageados
Postado em 15 DE fevereiro DE 2026
Nos 25 anos da trilogia O Senhor dos Anéis, uma entrevista com Reinaldo José Lopes, especialista em Tolkien
Tradutor de O Hobbit explica complexidade e riqueza dos livros em relação aos filmes, propõe ordem de leitura da mitologia da Terra Média e dá detalhes das influências de um dos mais importantes escritores do século XX.
Postado em 12 DE fevereiro DE 2026
Dez clássicos contemporâneos da nova literatura da América Latina
Itamar Vieira Junior, Ana Maria Gonçalves, Valeria Luiselli, Monica Ojeda: conheça os autores essenciais que renovam a tradição literária latino-americana.
Postado em 10 DE fevereiro DE 2026
Biblioteca de São Paulo é destaque em reportagem do Sesc SP
Matéria sobre bibliotecas vivas mostra BSP como espaço de leitura, cidadania e convivência
Postado em 03 DE fevereiro DE 2026


