Nos 25 anos da trilogia O Senhor dos Anéis, uma entrevista com Reinaldo José Lopes, especialista em Tolkien
12 DE fevereiro DE 2026
Crédito: SP Leituras/Divulgação Por Marcos Vinícius Almeida
Entre as muitas curiosidades que cercam a produção dos filmes de O Senhor dos Anéis, algumas verdadeiras e outras apócrifas, está a chegada dos cavaleiros de Rohan à batalha final em Minas Tirith. Sitiados pelas forças sombrias de Sauron, a cidade branca de Gondor acende os faróis nas montanhas, pedindo ajuda aos exércitos do rei Théoden. Não há certeza se a ajuda virá. Ou se chegará a tempo de evitar a catástrofe.
Para essa recriar essa cena, uma das mais importantes de O Retorno do Rei, filme vencedor de 11 Oscars, o diretor Peter Jackson teria feito uma exigência ao elenco: para a primeira fileira de cavaleiros, ele escolheria apenas figurantes que tivessem lido integralmente os livros de J. R. R. Tolkien. Apenas leitores da trilogia poderiam compreender o peso narrativo daquele momento decisivo. Verdadeira ou não, essa anedota é sintomática da complexidade dos livros em relação aos filmes.
O jornalista Reinaldo José Lopes, especialista na obra de Tolkien e tradutor de O Hobbit, diz que os livros são muito mais ricos e complexos porque permitem um retorno sempre renovado às páginas. “No meu caso, pelo menos, eu não consigo revisitar os filmes com a mesma riqueza de novas leituras que os livros me proporcionam”, explica.
Na entrevista abaixo, concedida por WhatsApp, enquanto passeava com a sua feroz cachorrinha Zelda, Reinaldo comenta curiosidades da vida Tolkien, propõe uma ordem de leitura da obra e fala da influência da Batalha do Somme, na Primeira Guerra Mundial (e industrial), na composição dos livros.
O sucesso monumental do filme há 25 anos atraiu muitos novos leitores para o universo de Tolkien. Há uma estimativa que houve um aumento de até 1000% na procura pelo livro. São leitores que já chegaram nas páginas com as imagens dos filmes impregnadas na cabeça. É melhor ler o livro antes de ver os filmes?
Pois é, curioso, eu nunca tinha visto essa estimativa de 1000% de aumento. Eu acho que não é bem essa a pergunta, mas só um parêntese: depende também de onde no mundo a gente está falando. Os livros já faziam muito sucesso no mundo de língua inglesa, durante décadas antes dos filmes saírem. As pessoas já tinham o universo na cabeça em muitos casos. Talvez menos, decerto, do que no caso dos filmes.
No Brasil, eu peguei a fase pré-filmes e, depois, comparando com a fase pós-filmes, realmente era muito nichado antes. De fato, os filmes fizeram explodir. Mas enfim, não era essa a pergunta.
Eu sou enviesado porque, de novo, eu conheci os livros primeiro também. Eu acho que os livros, de qualquer modo, merecem ser conhecidos antes pelo simples fato de que eles têm uma complexidade literária, filosófica, de discussão ética, de mitologia mesmo, que nos filmes tenta se passar (em alguns aspectos é algo que transparece), mas falta muita coisa.
Os livros são muito mais ricos e, no meu caso, pelo menos, eu não consigo revisitar os filmes com a mesma riqueza de novas leituras que os livros me proporcionam. Eu meio que enjoei dos filmes e dos livros eu não enjoo. É engraçado isso. Acho que tem uma densidade muito maior que merece ser conhecida. E, se for possível, é legal ler os livros antes, sim, eu acho.
Qual seria a ordem de leitura recomendada para desbravar o universo da Terra Média?
A ordem de leitura. Eu acho tão engraçado como isso faz sucesso. Quem produz vídeo para o YouTube, para as plataformas, a postagem sobre a ordem de leitura sempre faz muito sucesso. Tem muita gente perguntando. Mas tem um problema que é o seguinte: tem muito livro póstumo. Não sei se se caiu essa ficha para você, imagino que sim, mas depois da morte do Tolkien houve uma explosão de publicações póstumas da obra. E as pessoas ficam perdidas.
Tem uma ordem, eu acho, que é a que leva em conta essas coisas póstumas. E outra que fica só nos livros básicos, que é muito mais simples porque é muito mais curta. E depende do tipo de leitor que você está falando, até da idade do leitor, da maturidade dele como leitor.
[Interlúdio de cachorro brigando]
Desculpa... Zelda! É a Zelda aqui. A Zelda é terrível, bicho, com outros cachorros.
Mas, enfim, voltando.
Eu acho que para leitores que estão começando na infância, na adolescência, em termos de escadinha de dificuldade, o que faz mais sentido é começar pelo O Hobbit mesmo. É um livro muito mais simples, muito mais leve, muito mais breve. E, portanto, as barreiras são muito menores. Você está muito mais ali pela diversão, embora todos os livros eu acho que, em sua medida, são divertidos, mas O Hobbit vai nesse embalo de diversão mesmo. Depois disso, a continuação natural de O Hobbit, como você sabe, é O Senhor dos Anéis, então vale a pena ir para O Senhor dos Anéis. E se você ficou realmente viciado, em especial nos apêndices de O Senhor dos Anéis e em todo aquele background de história gigantesco que os apêndices deixam antever.
Barulhos de latidos.
É um vizinho andando de bicicleta com a cachorra dele correndo junto, com a coleira presa no guidão da bicicleta, e a Zelda fica alucinada.
Se a pessoa, então, viciou nessa complexidade dos apêndices de O Senhor dos Anéis, aí ela vai encarar O Silmarillion de boa. Então essa seria uma ordem de iniciante.
Agora, para um leitor maduro, um leitor que está acostumado com clássicos — que era um pouco o meu caso, embora eu fosse meio moleque. Quantos anos eu tinha? Eu tinha 19 para 20 anos, eu acho, quando li Tolkien pela primeira vez. Eu peguei O Silmarillion primeiro, depois li O Senhor dos Anéis e depois li O Hobbit. Não acho uma ordem ruim, para um leitor maduro.
E aí os outros livros — Contos Inacabados, toda a História da Terra-Média, os grandes contos como Filhos de Húrin, Beren e Lúthien e por aí vai — aí é freestyle. Porque a pessoa já tem na cabeça toda a base histórica grandona daquele mundo e aí ela pode ler os temas que interessam mais para ela no geral. Então a ordem acho que seria essa. Ufa, acabei essa pergunta finalmente.
Muito se fala da influência dos eventos da II Segunda Guerra Mundial na composição de O senhor dos anéis, levando em conta que nem toda influência depende da vontade do seu autor. Você acha que existe alguma relação? Quais seriam as grandes influências que podemos rastrear nos trabalhos de Tolkien?
Tem muita coisa a ser dita sobre isso, mas vamos lá. Primeiro, esquece Segunda Guerra Mundial. De verdade, esquece. Porque embora o livro tenha sido escrito durante a Segunda Guerra Mundial, na sua maior parte, ele começou a ser escrito em 1937. Antes da guerra começar. E sem certeza de que a guerra de fato ia começar.
Toda a lógica que surge ali em O senhor dos anéis, é uma lógica que já estava estabelecida na criação dos textos que dariam origem ao Silmarillion, que são muito mais antigos, que são dos anos 1910. No fundo, o Senhor dos Anéis ele é uma continuação do Silmarillion, essencialmente.
Alguns elementos podem lembrar a situação da Segunda Guerra. Se você pegar O Senhor dos Anéis no prefácio, (foreword em inglês é o prefácio), o Tolkien ironiza o que seria o livro se ele tivesse de fato se inspirado no que aconteceu na Segunda Guerra Mundial. E ele faz até alusões um pouco 'ah, o que seria a bomba atômica', não diretamente, mas você consegue entender isso.
Se a gente for pensar em grandes conflitos, o que marcou a formação do Tolkien foi a Primeira Guerra Mundial, na qual ele foi soldado da força expedicionária britânica na Batalha do Somme. Lá na França, a batalha mais sanguinolenta da Primeira Guerra Mundial, um moedor de carne humana. Toda a coisa da guerra industrial, da maneira como o Sauron e o Saruman fazem com seus exércitos e destroem a própria terra com seus exércitos. Essa é a influência da Primeira Guerra Mundial, a primeira guerra industrializada da história que o Tolkien, se a gente descontar aí a Guerra Civil Americana, que o Tolkien tá colocando ali. Então esquece Segunda Guerra Mundial, de verdade.
Ah, agora as outras influências são muito amplas. Vale para o mundo dele como um todo: vale para O Silmarillion também, vale para O Hobbit em menor medida — O Hobbit meio que canibaliza a mitologia do Silmarillion em alguns aspectos — mas é aquela coisa dos suspeitos de sempre. Então, de um lado a gente tem as mitologias do norte da Europa, principalmente a céltica e a germânica — mais a germânica do que a céltica até. Depois, a gente tem uma influência cristã muito forte. Porque, no fundo, ele está recontando o que a gente chama (para quem é cristão), de história da salvação e a cosmogonia. Ele tá basicamente pegando um mito, um mito que é basicamente monoteísta cristão, só que dando influências pagãs, ou cristianizando o paganismo de certa forma, com um panteão de figuras que parecem divinas, mas na verdade são angélicas, são anjos e um Deus criador.
Ele está pegando a ideia da Atlântida, que é muito importante com a história de Númenor, a ilha de onde vêm os ancestrais do Aragorn. E várias outras coisas pontuais: um pouquinho de Egito, um pouquinho de Mesopotâmia, um pouquinho de Grécia, enfim. A gente pode pensar nas histórias importantes do Silmarillion como Beren e Lúthien, que parece um pouco com a história do Orfeu, e o Túrin Turambar, que parece com o Édipo. Então é muito variado. Mas certamente, se tiver alguma coisa de Segunda Guerra Mundial ali, é muito, muito por cima, menos do que a cereja do bolo.
Além dos filmes, que se tornaram onipresentes na cultura pop, tivemos influência que vão além da literatura. Desde os RPG clássicos, sucesso absoluto, com suas classes de magos, arqueiros e anões, até os jogos contemporâneos, como Shadow of Mordor, superpremiados. O que você acha desses desdobramentos? Acha que Tolkien imaginou que suas histórias iriam avançar para além dos livros?
Tem algumas coisas interessantes para falar. Por um lado, Tolkien tinha um lado cínico. Quando, pela primeira vez, adquirem os direitos de adaptação de O Senhor dos Anéis, ou estão querendo adquirir, ele fala para o editor dele: 'Olha, acho que as bases para assinar um contrato têm que ser duas coisas [ele fala em inglês]: art or cash'. Ou é arte, ou é grana. ‘Ah, por mim tudo bem, desde que se fizerem uma coisa artisticamente muito interessante, ótimo, a gente topa. E se fizerem uma proposta financeiramente muito interessante, ótimo, a gente topa também’. Ou uma coisa ou outra, não precisa ser as duas coisas juntas. Então, por um lado, acho que ele ia desencanar.
Por outro, a gente vê também — isso é o que ele está falando da boca para fora, em certo sentido — porque quando a gente vai olhar uma das primeiras propostas de adaptação ali, o cara faz umas coisas meio bizarras na sugestão de roteiro, ele fica muito bravo e não quer saber. Então, ele tinha uma relação de propriedade muito forte, com a obra, de ser muito cioso daquilo no fundo, apesar de falar do 'art or cash'.
Muitas coisas ele ia estar ali xingando e reclamando. O próprio filho dele, e testamenteiro literário, Christopher Tolkien, que faleceu na década passada, já bem idoso, mais de noventa anos, ele era um grande crítico dos filmes da primeira trilogia do Peter Jackson, que para muita gente é essa coisa intocável, endeusada. Então eu desconfio que a reação do pai ia ser muito parecida com a reação do filho, nesse sentido.
Por outro, numa carta que ele está tentando fazer um pitch, tentando vender o peixe para publicação quando ainda não tinha certeza de que ia ser O Senhor dos Anéis e tal, ele fala que sonhava em criar uma mitologia que depois outras pessoas criassem em cima dela com música, com artes dramáticas e tudo mais. Então, por esse lado, talvez ele vendo a vitalidade daquilo para novas gerações seria uma coisa bacana para ele, de fato, também. Então ficamos meio que no meio do caminho, eu acho.
*
Você encontra os livros de Tolkien no acervo da Biblioteca de São Paulo, da Biblioteca Parque Villa-Lobos e também da BibliON.
Reinaldo José Lopes é repórter, colunista e blogueiro da editoria de Ciência da Folha de S. Paulo, que ele chefiou de 2010 a 2013. Nascido em 1978, em São Carlos (SP), formou-se em jornalismo pela USP, onde também fez mestrado e doutorado na área de literatura inglesa, com trabalhos sobre a obra de J.R.R. Tolkien. Sua especialidade é a cobertura das ciências que investigam o passado remoto, em especial a arqueologia, a paleontologia e a biologia evolutiva. Ganhou em 2017 o Prêmio José Reis, o mais importante voltado à divulgação científica no Brasil.
Marcos Vinícius Almeida é Analista de Comunicação da SP Leituras, organização social parceira da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo, responsável pela gestão da Biblioteca de São Paulo, Biblioteca Parque Villa-Lobos, BibliON e pelas ações do SisEB. É Mestre em Literatura e Crítica Literária.
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